Resumo:
Um investidor relatou a perda de R$ 600 mil, quantia destinada à sua aposentadoria, após aplicar recursos na Mercatore Investimentos.
Esse indivíduo é um dos mais de 600 clientes que, conforme informações do Ministério Público Federal, realizaram investimentos na Mercatore ou na Meca, corretoras vinculadas aos empresários Breno Pignata, Felipe Rassi e Edilson Games.
Recentemente, os três foram formalmente acusados de crimes financeiros e associação criminosa.
Um homem que optou por manter sua identidade em sigilo relatou que perdeu R$ 600 mil que tinham como finalidade financiar sua aposentadoria em aplicações feitas na Mercatore Investimentos. Os sócios da corretora foram denunciados pela Justiça Federal de Ribeirão Preto (SP), acusados de desvio dos recursos financeiros dos investidores.
“Atualmente, se eu for considerar a correção do valor, já ultrapassa R$ 1,2 milhão. Na época, eram R$ 600 mil; todo o meu fundo de aposentadoria desapareceu”, declarou ele em uma entrevista à EPTV, afiliada da TV Globo.
O depoimento desse homem é parte das alegações do MPF sobre as mais de 600 pessoas que confiaram suas economias na Mercatore ou na Meca, ambas ligadas aos empresários Breno Pignata, Felipe Rassi e Edilson Games, agora processados por crimes financeiros e associação criminosa.
Em resposta à reportagem, Felipe Rassi mencionou ter sido também uma vítima da Mercatore e afirmou ter sofrido perdas financeiras. O advogado de Edilson Games prometeu retornar com uma declaração, mas não enviou uma resposta até o fechamento desta matéria. Não foi possível contatar Breno Pignata para comentários.
‘Não havia mais ninguém’
O cliente relatou que após investir R$ 600 mil recebeu retornos apenas durante um mês; logo depois, a situação tornou-se suspeita. Ele afirmou que ao tentar resgatar seu dinheiro não obteve respostas e ao visitar o escritório da corretora encontrou-o fechado e sem funcionários.
“Três anos atrás tentei fazer um saque e ele não foi realizado. Quando fui até a empresa, não havia mais ninguém lá. Eles ocupavam um andar inteiro; era uma empresa bem estruturada, mas tudo desapareceu”, contou.
Além disso, o investidor revelou que antes dessa situação crítica chegou a recomendar amigos e familiares para aplicarem seus recursos na corretora. “Eles têm um método persuasivo que leva as pessoas a acreditarem que tudo está sob controle; meu irmão também sofreu perdas. Um passa para o outro essa confiança de que a rentabilidade era alta”, explicou.
Uma mulher que também optou por permanecer anônima disse ter perdido R$ 300 mil na Mercatore. Segundo seu relato, os responsáveis pela corretora eram muito articulados e forneciam informações detalhadas para ganhar a confiança dos clientes.
“Eram extremamente convincentes; falavam como gerentes de banco. Explicavam tudo com clareza até conseguirmos entender onde nossos investimentos estavam sendo aplicados”, contou.
Ação judicial contra os responsáveis
A denúncia apresentada pelo MPF afirma que os réus angariaram fundos de mais de 600 investidores, convencendo-os a alocar recursos em um fundo exclusivo da Mercatore e/ou da Meca. Entre julho de 2018 e novembro de 2021, foram registradas pelo menos 527 transações realizadas sem respeitar os contratos estabelecidos com os clientes, conforme a Polícia Federal.
Alegações indicam que os executores prometeram rentabilidades elevadas e segurança nas aplicações financeiras através de um “fundo garantidor próprio”, semelhante ao Fundo Garantidor de Créditos da Bolsa. No entanto, posteriormente impediram os investidores de retirar seus valores aplicados, conforme exposto pelo Ministério Público Federal.
Ainda segundo a denúncia, parte dos recursos captados pela Mercatore foi direcionada a empresas privadas em fase inicial associadas aos denunciados, resultando em dissipação dos valores sem retorno aos investidores. Outra fração foi aplicada em operações arriscadas na Bolsa, ocasionando perdas estimadas em R$ 16,1 milhões.
A denúncia destaca que embora alguns investidores tenham conseguido realizar resgates parciais na Mercatore, muitos foram privados total ou parcialmente do patrimônio investido quando a empresa fechou devido a pedidos de liquidação das aplicações financeiras.
Conforme consta nas acusações, Breno ofereceu um plano para recuperação extrajudicial mas não cumpriu as promessas feitas. Os problemas continuaram nas operações da Meca Investimentos — fundada por Felipe e Edilson — onde levaram parte dos clientes da Mercatore.
A denúncia ainda sublinha que mesmo após a dissolução da sociedade entre Felipe e Breno em 2020, os contratos investigados evidenciam uma relação simbiótica entre Mercatore e Meca.
No encerramento das investigações, o Ministério Público Federal acusou os empresários por atuarem como assessores financeiros sem as licenças adequadas e por gestão temerária além da apropriação indébita dos valores dos investidores.
No mês de janeiro passado, a juíza federal Milenna Marjorie Fonseca da Cunha tornou os três acusados réus no processo. Eles responderão por crimes relacionados à gestão fraudulenta e negociação irregular de valores mobiliários além dos atos associativos criminosos.